domingo, 5 de março de 2017

Road Trip África 2017 - planejamento e preparação


Estrada no Great Karoo | África do Sul

Toda viagem tem uma história que a gerou, algo que foi o start para que ela se tornasse real. Pode ser o sonho antigo de conhecer um lugar, ou uma matéria recente numa revista ou TV, a oportunidade de juntar uma viagem com um evento, milhas vencendo, uma promoção que surgiu, enfim... Eu adoro estas histórias e a forma como um destino às vezes atropela outro. 


Foi o que aconteceu conosco nessa viagem à África. Desde 2015 planejávamos uma viagem de motorhome pela Europa, principalmente Alemanha e Polônia, junto com uma road trip de carro pela Islândia, destino que me revira o juízo desde que li o relato de Leo (do ludleopelomundo.blogspot.com) da incrível viagem que eles fizeram por lá. A primeira ideia era janeiro de 2016, mas eu tive que me submeter a uma cirurgia nesse mês – e outra em junho, e todos os planos de viagens longas para aquele ano foram suspensos. Ok, planos transferidos para janeiro de 2017, e com meses de antecedência eu já tinha boa parte do roteiro prévio pronto, orçamentos de motorhome e carro feitos, e muita informação lida e sistematizada, só aguardando o melhor momento para comprar as passagens aéreas.

 Hipopótamos no Kruger National Park | África do Sul

Mas num belo dia, surge no meu celular a notícia de uma promoção de passagem para a África do Sul, praticamente no mesmo preço de promoção para a Europa, exatinho nas datas que tínhamos (filha na escola, sabe como é...) caramba! A África era sonho antigo, mas que nem pensávamos realizar agora. A decisão final veio quando constatei que além da boa estrutura de estradas e campings, os custos para uma road trip de motorhome na África do Sul eram muito próximos dos que eu havia orçado na Alemanha. Pronto, nascia a nossa road trip pela África do Sul e Suazilândia para janeiro de 2017.

Visita a uma tribo suazi | Suazilândia

Foram 29 dias na África do Sul e Suazilândia, destes, 28 em um motorhome, e como gostaríamos de ter tido mais tempo! Para conhecer o oeste e extremo norte da África do Sul, explorar o norte do Kruger, conhecer o terceiro parque nacional da Suazilândia, ir à sua capital, ir a uma vinícula, e ficar mais tempo nos lugares que mais gostamos... A África do Sul é enorme, super diversa e intensa, e valeu a pena cada lugar que passamos nos exatos 7.082km rodados entre montanhas, planícies e praias lindas, a maioria de cair o queixo. É certo que estar em um motorhome foi essencial para conseguirmos seguir o roteiro, já que ter transporte e hospedagem sempre junto de você é um ganho de tempo incrível. Nada de fazer e desfazer malas, e tanto o “parar e dormir” quanto o “acordar e rodar” eram extremamente simplificados.

IMIGRAÇÃO

Os brasileiros não precisam de visto para entrar nem na África do Sul nem na Suazilândia, bastando o passaporte válido, e os procedimentos de imigração são bem simples para os dois países. 




Mas atenção! Ao entrar na África do Sul foi solicitada a certidão de nascimento de Letícia, documento que nós não tínhamos levado (já que nunca nos foi pedido) e foi um baita susto! Imagina o desespero quando o funcionário da imigração disse que ela não poderia entrar no país sem a certidão de nascimento??? No final das contas a carteira de identidade dela resolveu e questão, e nós tivemos que apresentá-la também na entrada da Suazilândia e na saída da África do Sul. Não me perguntem nem o motivo da exigência nem o fato da carteira de identidade ter sido aceita, já que contem as mesmas informações do passaporte, mas eu fiquei tão feliz com a solução que nem quis saber rsrsrs Já no Brasil descobrimos que as regras mudaram em junho de 2015, e o país passou a exigir a apresentação da certidão de nascimento para todos os menores de idade que entram ou saem de lá, sejam sul-africanos ou estrangeiros. Para não passar susto não esqueça a certidão de nascimento dos menores, o resto será tranquilo.

A África do Sul exige a CIV – carteira internacional de vacinação para a febre amarela, e se você ainda não tirou a sua não perca tempo, pois o procedimento é muito simples e você já fica tranquilo para esse e outros destinos. Desde o ano passado a vacina da febre amarela deixou de ter prazo de validade e basta uma dose para estar protegido para o resto da vida. Para tirar a CIV é só se dirigir a qualquer posto de vacinação (se você ainda não é vacinado, claro), tomar a vacina e pegar a sua carteirinha nacional de vacinação com data, lote e a assinatura do funcionário do posto de saúde, e então leva-la em um posto da ANVISA (os dos aeroportos são muito práticos). Lá, apresentando a carteira nacional de vacinação com os itens acima e um documento oficial de identificação, você tira a CIV em poucos minutos, e aí é só prender ao passaporte e ficar tranquilo para o resta da vida, já que na CIV a validade sairá life.




Se a febre amarela é um risco no Brasil, a malária é o risco na África. Grande parte da África do Sul está livre desta doença, e no nosso roteiro apenas a região do Kruger e a Suazilândia possuem incidência, que é de baixa a moderada. Há uma medicação profilática para a malária, mas depois de buscar informações e pedir opiniões, resolvemos não tomar a medicação mas nos proteger da picada do mosquito, que no frigir dos ovos é o que mais protege. Levamos repelente daqui, daqueles mais recomendados e de duração mais longa, mas compramos um sul-africano assim que chegamos lá (eles têm repelentes super potentes), e da chegada à região do Kruger até sair da Suazilândia redobramos a atenção com repelentes e calças compridas.

Moldura da Table Mountain em Robben Island em Cape Town | África do Sul

MOEDAS

A moeda sul-africana é o Rand, e sua cotação quando fomos era de aproximadamente 4 rands para cada real. Mas não adianta levar real para lá, e o melhor mesmo é levar dólar, que podem ser trocados nos bancos – geralmente as melhores cotações – ou nas casas de câmbio. Importante destacar que as casas de câmbio não aceitam as cédulas antigas de dólar, apenas os bancos. Os cartões de crédito são bem aceitos na maioria dos lugares do país. Já na Suazilândia, a moeda é o lilangeni (no plural, emalangeni), e seu valor é pareado ao rand. Se você for ficar poucos dias no país, nem se preocupe em trocar a moeda, porque o rand é amplamente aceito lá, do posto de gasolina à bilheteria do museu nacional e também não há dificuldades em usar os cartões de crédito.


Mergulho com os tubarões brancos em Gansbaai | África do Sul

SEGURANÇA

Tanto a África do Sul quanto a Suazilândia são países de grandes desigualdades sociais, então é preciso atenção com a segurança, como acontece na maioria das cidades brasileiras. Apesar disso, não tivemos nenhum problema ou nos sentimos inseguros, em qualquer que fosse a região – mas sempre redobramos a atenção nas cidades maiores. Os cuidados nós conhecemos bem: estacionar em lugares movimentados, ter atenção aos pertences e evitar acessórios que chamem atenção, não andar a noite em lugares mais desertos, não expor equipamentos caros em lugares não turísticos, ser discreto e atento ao fazer câmbio... enfim, quem é brasileiro sabe do que estou falando. Tomamos esses cuidados e tudo transcorreu normalmente e com muita tranquilidade para nós.

Rua do Soweto - Gauteng | África do Sul

Fomos com o seguro saúde do cartão de crédito (Visa Platinum) e também não tivemos problemas nem necessidades de acioná-lo. Só é preciso atenção porque as regras mudaram, e agora é preciso imprimir o bilhete antes do início da viagem, após solicitação no site ou por atendimento telefônico, mas o processo é muito simples.


Elefante no Hlane National Park | Suazilândia

INTERNET

Ainda no aeroporto compramos chips Vodacom em uma loja própria, e tivemos sinal de razoável a bom em praticamente todo o país, com exceção do Kruger que, como esperado, só tinha sinal nos portões de entrada, e mesmo assim não era bom. A recarga era bem simples nas lojas Vodacom e outras credenciadas. Há outras duas empresas de telefonia móvel no país, mas a Vodacom parece ser a maior e de melhor cobertura. Na Suazilândia ficamos apenas 2 noites e resolvemos tirar férias de internet por lá. Já wifi, como ficávamos em campings, dificilmente tínhamos acesso. Mas em pousadas e hotéis é muito comum ter. O melhor wifi da viagem foi na fila do bondinho do Table Mountain, super rápido ;)

Na Table Mountain, cartão postal de Cape Town | África do Sul 

Cape Town vista do alto da Table Mountain | África do Sul 

IDIOMAS

Os idiomas falados na África do Sul dão uma clara mostra da diversidade do país - são 11 línguas oficiais e outros tantos dialetos. Dentre as oficiais está o inglês, que embora seja a língua formal com a qual o sul-africano se comunica com o resto do mundo, é apenas a quinta língua mais falada dentro das casas do país. Mas não se preocupe, você vai conseguir se comunicar em inglês, embora em algumas regiões seja um inglês bem diferente, cheio de Rs e palavras truncadas, como alguém que está aprendendo o idioma e ainda não sabe a pronúncia direito. Relaxe, eles sabem que os estrangeiros têm dificuldade de entender algumas coisas e abusam das mimicas para sair de apertos. Encare como regionalismo, como o português do Brasil comparado ao de Portugal. Imagine um português ouvindo os nossos sotaques mais carregados... ele vai sofrer um pouco, mas não vai deixar de se comunicar.



Bem-vindo nas 11 línguas oficiais da África do Sul - cardápio do Harrie's Pancakes em Graskop

Além do inglês, que está praticamente no país todo, as demais línguas se concentram em algumas regiões, de acordo com a localização das tribos ou colonizadores que as usava. Na região mais sul, próximo de Cape Town, quase todas as placas e folhetos vêm escritas em inglês e em africâner – uma língua criada na época da colonização holandesa que mistura o holandês com línguas nativas africanas. Aliás, das línguas nativas, a mais falada é o zulu, que está muito presente na região de Durban, em KwaZulu-Natal, e é uma delícia de ouvir, com todos os seus clicks e estalos de língua. Trouxemos alguns CDs de música sul-africana e nas cantadas em zulu, eu só acredito que é a mesma pessoa que está cantando a música e fazendo os estalos porque os vi falando assim lá. É incrível a agilidade necessária para falar uma palavra de 4 sílabas com um estalo no meio sem interromper a fala – tenho certeza que com minhas quatro décadas de vida não consigo mais ativar os músculo da boca necessários para essa façanha kkkk

Em algum ponto após Pietermaritzburg no sentido Norte/Sul, 
na província de KwaZulu-Natal | África do Sul

Se o zulu é mais forte no norte, a língua Xhosa está mais presente no sul, é a segunda mais falada e também tem os clicks e estalos muito característico das línguas de origem bantu (raiz das nove línguas oficiais nativas). Sério, gente, é muito gostoso ouvir eles falando. Impossível reproduzir. As demais são: Sepedi, Tswana, Sotho, Tsonga, Swati, Venda e Ndebele.

MÃO INGLESA E TRANSITO
  

Estou escrevendo um post só sobre nossa experiência com o motorhome e com o trânsito na África do Sul e Suazilândia, mas por enquanto vou apenas colocar algumas informações gerais. Os dois países possuem uma cultura muito forte de campismo, havendo muitos campings espalhados em ambos, alguns com ótima estrutura de lazer. Os locais preferem usar trailers, provavelmente porque é mais barato e prático para quem mora do país e já tem um carro pequeno. Quando víamos um outro motorhome logo suspeitávamos que era turista estrangeiro. Embora fosse janeiro, não fizemos reserva em nenhum camping e não tivemos qualquer dificuldade em ser aceito neles – é preciso destacar que eles têm quatro férias escolares ao ano, e a mais longa ocorre em dezembro, logo janeiro é mês de aulas. Provavelmente o mês mais cheio nos campings seja exatamente dezembro. Usamos o app Caravan Park para escolher e localizar um camping próximo de onde queríamos dormir, e dependendo do andamento do dia, mudávamos de ideia tranquilamente – vantagem de estar de motorhome. Sem reservas, nada nos impedia de fazer isso.

As estradas que pegamos eram muito bem conservadas e sinalizadas. Nesse quesito, a maior dificuldade que tivemos, principalmente entre Kimberley e Johanesburgo, e na Suazilândia, foram as várias obras de duplicação de vias e construção de viadutos, e seus Siga/Pare que nos fizeram perder tempo nos deslocamentos.


Mas provavelmente a maior preocupação de quem quer dirigir na África do Sul seja a mão-inglesa! Foi nossa primeira vez dirigindo com o volante do lado direito, o que junto com a estreia em um motorhome, tornou as coisas no início meio tensas para o motorista da família. Nada que em três dias não tivesse sido contornado. É muito estranho estar na faixa da esquerda, e no começo era constante a sensação em curvas de que íamos bater nos carros vindos no outro sentido. Mas acredite, como em várias outras situações da vida, você também vai se acostumar a isso, e seu cérebro rapidamente vai fazer os ajustes necessários. E afinal, não é essa uma das grandes vantagens de viajar para lugares distantes e diferentes do nosso? Nos abrir ao novo e ampliar nossa capacidade de adaptação, como acontece com novas línguas e hábitos culturais? Só digo que no final da viagem Thiago já estava fazendo balizas apertadas no motorhome e na mão inglesa, como nas disputadíssimas proximidades do bondinho da Table Mountain e do Victoria Market no caótico centro de Durban. Como gosto de dizer, nessas horas meu amor por ele se renova totalmente kkkkk


Mac-Mac Falls na Rota Panorâmica | África do Sul

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