sexta-feira, 9 de junho de 2017

Na região do povo Xhosa - as origens de Nelson Mandela


Quando concluímos as nossas pesquisas sobre a África do Sul, ficou certo que depois de Drakensberg iríamos para Tsitsikamma e de lá para as praias da Rota Jardim. Mas entre Drakensberg e o Parque Nacional do Tsitsikamma são mais de 1.200km - pesado demais para percorrer em um único dia - o que nos obrigava a quebrar a viagem, sem, entretanto, ter muito tempo para curtir a região, que não é lá muito turística.


Conversando e lendo aqui e ali percebemos que a região, apesar de pouco explorada turisticamente, é muito interessante: comunidades tradicionais, praias selvagens e as origens de Nelson Mandela. Foi nessa região que nasceu o primeiro presidente negro da África do Sul, oriundo da população XhosaNo litoral, tem-se a Wild Coast, com praias lindas, e logo me interessei em conhecer Coffee Bay, que havia lido ser o local que Mandela nasceu, e Chintsa, que alguns dizem ser a praia mais bonita dessa região.


          Caminho que traçamos, e as praias de Coffee Bay e Chintsa que não conseguimos visitar.

Entretanto, soubemos que a estrada para Coffee Bay não está boa e poderia atrasar muito o roteiro. Pensamos em dormir em Chintsa para conhecê-la com mais calma, mas para isso teríamos que rodar quase 800km em um único dia, ou atrasar o roteiro. 

Já rodamos até mais de 800km em um dia no Brasil, mas numa road trip dessas, não tinha muito sentido, principalmente porque Thiago ainda não estava totalmente relaxado em pegar estrada dirigindo um motorhome na mão inglesa.


E foi assim, meio frustrados, que resolvemos que só acessaríamos o litoral a partir de Porto Elizabeth.


Mal sabíamos o que nos esperava.



O clima estava muito pesado e chuvoso, mas desde o começo do trajeto fomos ficando maravilhados! A região é montanhosa e habitada por muitas comunidades tradicionais, principalmente Xhosa, com suas casas redondas (rondavels) apinhadas nos morros e sua língua peculiar cheia de clicks e estalos. Os cenários eram lindos, com imensos vales, penhascos e montanhas, uma pena que o tempo fechado não tenha ajudado nas fotos. 


Li pela internet que a construção das "casas redondas" é uma tradição que remonta as antigas tribos africanas, e tem seu fundamento na crença de que os espíritos dos familiares mortos visitam suas família, mas apenas nas rondavels. Por isso, mesmo com o advindo das construções modernas, as famílias continuaram construindo pequenas rondavels ao lado das casas retangulares.

Bom, pra falar a verdade tentamos comprovar essa tese lá, mas ninguém confirmou a história. O certo é que observando as construções nos morros fica muito claro que as casas circulares geralmente estão próximas de casas retangulares, e elas se distribuem em grupos de uma mesma cor, passando a ideia de grupos de casas de uma mesma família. Se alguém souber mais sobre o assunto, por favor, conta aí nos comentários. Eu só posso atestar que elas formam um mosaico lindo!

Veja na foto abaixo, como há sempre uma casa redonda ao lado das retangulares, e elas formam grupos azuis, amarelos, verdes, rosa... (clique na foto para ampliar)


Esta foi uma região escolhida durante o regime do apartheid como "reduto negro", e por isso até hoje, 23 anos após o fim do regime, ainda é uma região pobre e negligenciada do país, como aconteceu com várias outras regiões destinadas aos chamados "não europeus". 

As diferenças ficam notórias quando passamos por cidades históricas, maiores e fortemente marcadas pela colonização européia, que durante o apartheid eram destinados aos europeus, como Pietermaritzburg, próximo de Drakensberg. Vimos nos arredores do centro da cidade condomínios com casas sofisticadas e população predominantemente branca, o que contrasta com as regiões próximas, mais rurais e empobrecidas.



Também cortamos o centro de cidades menores e mais pobres, com muito comércio de rua e mães carregando seus filhos nas costas amarrados em mantas. 



Conhecer a África do Sul além dos seus cartões postais foi uma parte deliciosa de nossa viagem. Aliás, essa é sempre uma parte deliciosa de uma viagem assim, na estrada - e eu, particularmente, adoro.


Convencidos da impossibilidade de visitar Chintsa, e ainda ponderando uma visita rápida a Coffee Bay, decidimos de última hora dormir em Mthatha, uma cidade de médio porte e relativamente organizada.

No dia seguinte, saindo de Mthatha em direção a Tsitsikamma, consultamos o Lonely Planet e descobrimos que ali há um museu em homenagem a Nelson Mandela. Consideramos que valeria uma parada e seguimos para lá. 




Que surpresa boa tivemos! Coffee Bay não foi onde Mandela nasceu, embora seja a praia mais próxima de Qunu, sua vila natal. Já o museu de Nelson Mandela foi construído em uma região alta em que, no fundo, se pode ver o vale onde está a vila que o viu nasceu e viver os primeiro anos de vida.


Lá podemos conhecer bastante de suas origens, como passou sua infância, suas primeiras experiências e os estudos. Sobre como ele teve substituído por sua professora no seu primeiro dia de aula o seu nome xhosa: Rolihlahla, por Nelson, o nome de um navegador inglês - essa era a conduta para todas as crianças "não europeias", ter seus nomes trocados por nomes europeus no primeiro dia na escola. Aliás, conhecemos sua primeira escola, que fica próxima ao museu.



Soubemos da morte precoce de seu pai, da referência que teve no tio, do seu ritual de iniciação xhosa, da sua breve carreira de pugilista, e da sua decisão em não seguir o destino traçado em sua tribo de assumir um posto de liderança para seguir a carreira de advogado em Johanesburgo.

O museu é bastante interessante, e além de fotos, objetos, textos e um ótimo guia, possui uma estrutura para receber eventos, com salas, auditórios, restaurante e dormitórios.


Não conhecemos as praias da Wild Coast, e acho esse um ótimo motivo para voltar à região, mas foi muito gratificante tudo que conhecemos sobre as origens de Mandela. Foi uma daquelas surpresas de viagem, que sempre acontecem quando a gente se abre para o inesperado!

Não tenho dúvidas que o museu e a região merece uma visita, e se há tempo, uma ida a Coffee Bay, Chintsa ou outras praias da região. 

Um comentário:

Marcela disse...

Oi Mirtes!!

Que incrível esse trecho da viagem! Por isso é tão bom fazer roadtrips, né?

Não sei se você teve a chance de ler a autobiografia do Mandela (Longa Caminhada Até a Liberdade), ele fala muito sobre essa fase da infância... Se você não leu eu indico muito! Acho que complementa tudo o que pudemos ver lá na Africa do Sul... O quão impressionante é a historia de vida dele e o que significou pro país.

Beijo!

Marcela
@tripsandroadtrips